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26 de setembro de 2011

O que é identidade e autonomia? O que trabalhar?

        

Regras e hábitos

                                                            Ações de autocuidado e de formação de vínculos são o cerne do trabalho

Bebês brincam com chocalhos. Foto: Kriz Knack
Nas atividades em grupo, os bebês começam a aprender regras de convivência
Para desenvolver a capacidade progressiva de tomar decisões por conta própria, o bebê precisa de momentos de interação nos quais possa observar e ser estimulado a seguir regras estabelecidas dentro do grupo. Segundo o filósofo Immanuel Kant (1724-1804), o conhecimento se constroi, justamente, pela interação do homem com o meio - ideia retrabalhada na psicologia e nas investigações de cientistas como o suíço Jean Piaget (1896-1980).
Na fase de controle dos esfíncteres, por exemplo, é importante que a criança sinta-se i
ncomodada com a presença de urina e fezes. Isso vai ajudá-la a, aos poucos, a abandonar a fralda e passar ao uso do penico e do vaso sanitário, o que acontece por volta dos 2 anos de idade.
A maior independência da criança passa, ainda, pelo domínio de ações de autocuidado - como ajudar o adulto a vesti-la (entre 2 e 3 anos) ou fazer a higiene das mãos, com ajuda. Mas a incorporação desses hábitos é gradativa e precisa ser devidamente estimulada por você na creche. Vale lembrar que o desenvolvimento das crianças não deve ser equiparado. Cada um tem o seu ritmo e deve ser observado como um ser único e competente para ser autônomo.
Os estudos de Piaget mostram que a criança não raciocina como os adultos e que a inserção de regras, valores e símbolos se dá gradualmente, até que se alcance a maturidade psicológica. Para ele, nos primeiros anos de vida, os pequenos conferem legitimidade a regras e valores determinados pelos adultos, já que mantêm vínculos afetivos com eles - especialmente pais e educadores. Apenas quando domina a chamada moral autônoma é que a criança tem maturidade para compartilhar regras e discuti-las com o grupo, levando em conta o próprio ponto de vista e as opiniões dos colegas.
Ao longo da rotina na creche encoraje a criança a realizar pequenas ações individuais e estimule os momentos de socialização com os colegas. Explique cada uma das ações de cuidado e valorize quando a criança conseguir expressar preferências ou desejos - seja por meio de gestos, do choro ou de palavras. Vale, também, demonstrar insatisfação quando a criança tomar uma atitude que destoe das regras estabelecidas para o grupo. A comunicação com diferentes parceiros é mais um ponto importante a ser trabalhado no desenvolvimento dos pequenos.


IMAGEM CORPORAL.

Espelho é elemento chave para a construção progressiva do "eu"
Menina vê a própria imagem diante do espelho. Foto: Emilia Brandão
Exercícios em frente ao espelho ajudam os bebês a reconhecer a própria imagem
Um dos estágios mais importantes no desenvolvimento de qualquer pessoa é o que o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) denominou como estádio do espelho ("estádio", no caso, é sinônimo de fase ou período). Até mais ou menos os seis meses de vida, o bebê sente-se como parte de um corpo fragmentado - completado por sua mãe. Na medida em que cresce, adquire maior mobilidade, sofre intervenções do ambiente e deixa de ser amamentado, o bebê começa a perceber-se como um ser distinto. Quando colocado em frente a um espelho, ele progressivamente reconhece a imagem refletida de seu corpo e é a partir dessa experiência que o "eu" começa a ser construído.
Espelhos, portanto, são elementos imprescindíveis para a construção da identidade e devem estar em todas as salas na creche. Eles ajudam as crianças a ter consciência dos limites do próprio corpo e a observar os próprios movimentos, diferenciando-se dos colegas e do ambiente. Mantenha-os baixos, na altura dos pequenos, e ofereça oportunidades para que eles façam caretas, dancem, comparem imagens e realizem desafios corporais em frente ao espelho.
Para os bebês também é possível imprimir cartazes com as fotos dos pequenos e colar no chão - já que eles engatinham - ou nos berços. Todas essas oportunidades de exploração vão ajudá-los a manter o contato com a própria imagem e a identificar a figura do outro.
Experiências que envolvam música e sensações também são bem-vindas, assim como as ações de cuidado com os bebês. Tomar banho, ser trocado ou mamar, por exemplo, são atividades essenciais para o reconhecimento de si e o estabelecimento de vínculos com o outro. À medida que percebe seu corpo separado do corpo do outro, a criança consegue organizar as próprias emoções e ampliar seu repertório e seus conhecimentos sobre o mundo que a cerca.

PEQUENAS AÇÕES DO COTIDIANO.

Permita que os bebês tentem se vestir, lavar as mãos, guardar brinquedos...
Menina organiza armário na creche. Foto: Marcelo Almeida
Conferir pequenas responsabilidades à criança contribui para que seja cada dia mais autônoma
Segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, "o exercício da cidadania é um processo que se inicia desde a infância, quando se oferecem às crianças oportunidades de escolha e de autogoverno".
A capacidade de fazer escolhas é aprimorada na medida em que a criança amplia seus recursos - movimenta-se melhor, se expressa com mais habilidade - e tem oportunidade para colocar a autonomia em prática. Se você centralizar todas as decisões, pode impedir o desenvolvimento dos pequenos nas aprendizagens relacionadas à identidade e à autonomia.
Além das ações de cuidado (descritas nos itens 3.6 e 3.7 deste roteiro), é fundamental que, desde os primeiros anos de vida as crianças possam realizar pequenas ações. Os brinquedos e objetos precisam estar à disposição dos pequenos e ao alcance deles - seja em caixas ou em prateleiras baixas, organizadas nos cantos da creche. As crianças também precisam ser convocadas a ajudar nas atividades do grupo - cada uma com sua função.
As situações de ajuda entre as crianças são momentos igualmente importantes para o desenvolvimento da autonomia. Mesmo que os pequenos ainda não consigam finalizar algumas tarefas, sugira que uma criança ajude a outra a vestir-se, que ela segure a própria mamadeira, lave as mãos, ou ainda que guarde determinado objeto, por exemplo.


 Comunicação

Interação com adultos e colegas é fundamental na inserção cultural
Bebês interagem entre si. Foto: Roberto Chacur
Mesmo antes de falar, os bebês encontram formas eficientes para se comunicar
Desde que nascem os bebês se orientam pelo outro e criam vínculos afetivos com as pessoas que lhes garantem a satisfação das necessidades básicas - alimentação, descanso, higiene etc. É o adulto quem possibilita que a criança gradativamente tome conhecimento de si, tenha acesso ao mundo e seja inserida na cultura.
A identidade e a autonomia só serão alcançadas pelos bebês se eles forem submetidos a situações diversas de interação com o meio em que vivem. Isso implica se relacionar com adultos - pais, professores e funcionários da creche -, com colegas e com crianças mais velhas e mais novas. A comunicação envolve a exploração de situações e de ambientes, a observação das ações do outro e a expressão de desejos ou insatisfações por meio da linguagem corporal.
O êxito do processo de acolhimento das crianças na creche depende de uma boa comunicação entre bebê e educador. Desde o berçário, é fundamental observar se a criança responde a estímulos com gestos, sorrisos, choro, movimentos ou brincadeiras. Ao experimentar um novo alimento, por exemplo, ele demonstra alguma preferência? Faz uma careta ou abre a boca para receber mais uma colherada? E nas brincadeiras com os colegas ou nas atividades com música? O bebê reconhece quem é diferente dele? Movimenta-se conforme o ritmo?
Manter uma boa comunicação é um processo anterior à aquisição da linguagem verbal - que se dá depois do primeiro ano de vida. Os momentos de interação social permitem aos pequenos inserir-se na linguagem. Através dos significados que lhes são atribuídos pelos adultos - essa criança é mais 'tranquila' ou mais 'esperta', por exemplo - eles constroem a própria identidade e reforçam o processo de diferenciação entre o "eu" e o "outro".
Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/creche-pre-escola/roteiro-didatico-identidade-autonomia-creche-634707.shtml?page=3.3

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